Ó abre alas, que eu quero entrar no wrecking!

O Brasil é o país do carnaval. Pergunte a qualquer gringo. E também do samba, do batuque, do suingue e do futebol. Desde pequenos, todos nós brasileiros somos expostos, de uma maneira ou de outra, a toda essa explosão de brasilidade que assola o país de norte a sul. E é carnaval pra tudo que é gosto. Tem o tradicional desfile do Rio e São Paulo, o mar de gente em Recife e Olinda, trio elétrico em Salvador e blocos carnavalescos se bobear até debaixo de bueiro. Tem pra rico e pra pobre. E como se não bastasse, ainda existe carnaval fora de época. Afinal, para cunhar uma velha expressão, “o show tem que continuar”.

“Eu odeio o carnaval, para mim não passa de uma futilidade sem fim, uma enorme perda de tempo e dinheiro”. Quem nunca ouviu isso? Ou até mesmo disse? Para a galera “do rock” isso é bem normal, principalmente se for molecada. Não é legal gostar de coisas que nossos pais gostam, todo aquele excesso de gente feliz não cai bem no gosto dos filhos de satã.

Sociologicamente, há muita veracidade em tal afirmação. Carnaval custa caro, enche os bolsos de uma minoria e as vezes dá a sensação de ser um artifício do governo para criar um frenesi coletivo, uma espécie de “dois minutos do ódio” de George Orwell às avessas. O engraçado é que a maioria dos que falam que odeiam o carnaval, o fazem pelos motivos errados. O fazem pela negação, sabe, aquela negação de achar que enquanto o país está na mer…, incrustado por uma política inerte e corrupta e com a pobreza mostrando o rosto em cada esquina, é um ato completamente tolo sair por aí dançando e enchendo a cara de bebida. Deveríamos todos ficar em casa entediados e deixar celebrações para os países de primeiro mundo.

Ironicamente, todos esses “haters” depois poderão ser encontrados pulando de alegria, no Rock in Rio, no Planeta Terra, na Oktoberfest e até mesmo em festinha de St Patrick’s Day na Augusta.

O Cordão do Bola Preta atrai milhares todos os anos.

Tive o prazer de ir ao carnaval de rua do Rio, quando o mesmo ainda era um embrião do fenômeno que é hoje. O famoso bloco Cordão do Bola Preta. Na época os mijões ainda eram deixados em paz. Lembro de estar ali parado, tomando minha cerveja e apreciando toda aquela felicidade no centrão do Rio, e me deparar com alguns fatos interessantes. Primeiro, um mendigo, senhor de pelo menos 60 anos, sem chinela, sem camisa, sem dentes, bastante sujo e provavelmente bêbado. Pulava como se não houvesse amanhã. E provavelmente para ele não haveria muitos amanhãs mesmo. Depois uma tiazinha com uma mascara de Dercy e  uma penca de pirralhos na barra da saia, todos muito felizes. Tirou a máscara, veio em minha direção e falou:

– Vamo lá meu filho, vamo mexer essas pernas aí.

Respondi com um sorriso:

– Tenho muito trabalho mais tarde tia, preciso manter as energias, ao que ela prontamente retrucou:

– Que nada, filho, carnaval é isso aí. É daqui que tiro minhas energias para o ano inteiro. Meu marido faleceu há 4 meses e eu poderia estar de luto, encostada num canto da casa. Mas tive que vir. A gente tem que viver a vida. Olhe pra mim, eu nem tenho samba no pé. Mas quem liga? Eu preciso disso, é tanta coisa na nossa vida que a gente tem que aproveitar os pequenos momentos.

A tiazinha sorriu e depois sumiu em meio a multidão.

Não, eu não sai sambando pela rua após isso. Seria muito “coisinha de Jesus” além do sério risco de alguém filmar e eu acabar com milhares de acessos no youtube.

Pensei então, o carnaval não deveria ser uma coisa para se odiar. Por mais que você odeie o samba ou o axé, e Amélia pra você seja alguém que deveria ter sido enforcada num ritual satânico há muito tempo, o fato de sair pela rua em uma manifestação de alegria é algo que não pode ser condenável de maneira alguma. Se a pessoa quer comprar um abadá (ô palavrinha infeliz) e sair pulando a “dança da tartaruga”, o que a faz tão diferente de mim, que compro ingresso para um festival de rock, encho a cara e saio pulando em rodas de pogo. Eu estou mais a par das mazelas do mundo desta maneira? Tenho mais atitude? Acredito que não. Acredito que sou mais um vivendo a vida, estando ela cheia de problemas ou não e além do mais eu não faço a mínima idéia de quando ela vai acabar. Só sei que quando acabar já era. Só se vive uma vez.

Psychoooooo!

Por não ser muito chegado em samba nem marchinha (bom sujeito não sou), há 4 anos seguidos que vou para o Psycho Carnival em Curitiba. Cada ano melhor que o outro.  Bandas de Psychobilly do mundo inteiro, gente vinda de todo canto do país. Todo aquele climão, amizade, insanidade e diversão explodindo em meio a um mar de misfits e freaks. Infelizmente, por essas  vicissitudes da vida,  não fui ano passado e este ano vou perder novamente.

No Psycho Carnival de 2009, lembro de outro momento curioso. Estava sentado na arquibancada das Ruínas de São Francisco. A banda a tocar era o CWBillys, rockabilly de mão cheia. Ao longe, em meio aos rockers e wreckers observo um morador de rua a pirar o cabeção ao som da banda. E um sorrisão de felicidade. Claro, era óbvio que não faria diferença se fosse forró ou psy trance. Assim mesmo, era uma experiência interessante observá-lo ali, naquela diversão sem fim. Provavelmente mais tarde ele deitaria numa calçada qualquer e se cobriria com um papelão para passar a noite. Mas claro, isso não importava para ele e nem para ninguém mais, o que importava era que a música não parasse.

Por um instante, lembrei da tiazinha lá do Cordão do Bola Preta. Lembrei que em duas semanas estaria de volta ao batente. Lembrei de hospitais cheios de gente morrendo por falta de leito e tambem lembrei da Guerra do Iraque. E novamente,  lembrei da tiazinha.

“Que nada filho, carnaval é isso aí. É daqui que tiro minhas energias para o ano inteiro. Eu preciso disso, é tanta coisa na nossa vida que a gente tem que aproveitar os pequenos momentos.”

A única coisa que sei agora é que, o mundo pode estar explodindo em calamidades no ano que vem, e mesmo assim só tem um lugar onde quero estar.

No meio do wrecking do Psycho Carnival 2013.

Stay sick!

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Comments

  1. como sempre os textos do Renato são maravilhosos e dão um gosto diferente para as coisas, adorei, disse o que pensa sem ser mesquinho, foi inteligente, direto e com uma construção de ideias perfeita.🙂

  2. Filipe Larêdo says:

    Todo o sincretismo é válido, principalmente para aqueles que gostam de boa música. Excelente texto e opinião, Renato. Abs

  3. Anônimo says:

    o texto e sem duvidas uma graça.

  4. Rafaela Fontoura says:

    Muito foda, Renatinho. Texto sensível, poético. Nobel de literatura pra você.

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