Durango95′ entrevista Jurassico YM, lendário colecionador de discos raros

Por Filipe Larêdo e Marcelo Papel

Durango95′:  Quando começou o interesse por raridades e especialmente os diversos estilos da cultura musical jamaicana?

Jurassico YM: Bom, há muitos anos tenho o hábito de colecionar discos e comecei essa paixão por conta dos meus pais, que sempre compraram discos (apesar de terem abandonado na época do CD) e herdei um velho “3 em 1” do meu pai, e assim comecei a comprar discos de rock e punk – que era o que eu escutava até me apaixonar pela música da Jamaica. Quando isso aconteceu (por volta de 2001) eu passei a comprar muitos compactos e lps de música jamaicana, mas desde 1960 até 1980. Porém, por volta de 2003/2004, eu me apaixonei ainda mais pela década de 1960 da música feita na Jamaica, foi então que decidi me dedicar 100% a colecionar compactos jamaicanos de Jamaican Blues/Ska/Rocksteady/Reggay originais de época.

 

Durango95′: Qual o maior prazer de organizar um coletivo de colecionadores de vinil?

Jurassico YM: Cara o maior barato disso é que quando comecei a comprar discos era apenas um hobby meu. Aí descobri a galera que hoje faz parte da Jurassic comigo, que pirou nesse lance de compacto original e tal, mas não comprávamos nada, só trabalhávamos todos nos lances de fazer festa/blog. Porém, é meio que impossível se envolver com vinis e todo o fetiche que cerca ele e não se apaixonar também, e hoje todos da Jurassic Sound compram também vinis e são fissurados nisso… Acho que é isso o grande barato, ver a febre do vinil pegar todos eles e ver eles correndo atrás de raridades e doidos pra tocar pra geral nas festas.

 

Durango95′: Você considera o seu trabalho como um resgate da cultura soundsystem?

Jurassico YM: Olha, não sei se um resgate da cultura soundsystem, mas sim algo como “a cultura soundsystem é bem mais antiga do que pensamos” ou “a raiz da cultura soundsystem” já que, pra muita gente, o soundsystem é algo que tem de ser muito grave, gigante ou até mesmo algo feito pra propagar roots/dub. Mas não, o soundsystem é uma arma de propagação de qualquer estilo musical que seja e na essência da raiz jamaicana ele era usado primeiro pra propagar o jazz/rhythm and blues e doo wop americano e o mento caribenho. Só que, com a evolução dos seletores da época pra produtores (como Coxsone, Reid, King Edwards), os ritmos jamaicanos nasceram e a cultura dos sistemas de som se consolidou ainda mais com o ska, rocksteady.

Soundsystem é mais do que propagar “o grave”, ter muitas caixas… Já disse o pioneiro da cultura, Ciryl Braithwaite AKA Count C:  “Sabe qual a maior arma de um soundsystem? Os discos”, e é por ai que tentamos seguir, mostrando a raiz da música jamaicana, mostrando essas armas… os discos!”

 

Durango95′: Dentre as raridades que você tem na sua coleção, qual você destaca como a de maior valor sentimental e qual disco foi o mais difícil de encontrar?

Jurassico YM: Essa é uma pergunta muito dificil, pois até hoje temos discos com carga sentimental muito grande. Por exemplo, recentemente adquirimos um compacto muito raro do skinhead reggae que é Reggae Fever do Pioneers. Esse é um compacto que não existe e o relançamento é muito dificil de se encontrar nos dias de hoje, caro e raro… Provável que sejamos os únicos a ter uma cópia no Brasil e, nesse sábado passado (03/12), o tocamos pela primeira vez em uma festa e a festa veio abaixo. E fizemos nada menos que 8 rewinds!!!

Mas também temos compactos com histórias sentimentais grandes, como Happy Land, do Carlton and His Shoes, que veio na mala de um amigo chamado Chester (produtor,empresário e bussinesman jamaicano), que veio acompanhando King Stitt em sua turnê organizada por nós aqui no Brasil. Chester infelizmente sofreu um ataque cardíaco aqui e veio a falecer e em sua bolsa encontramos esse compacto que ele trouxe pra nos dar e a letra fala sobre um lugar feliz, distante e melhor para se viver. Isso me deixou um tanto quanto perplexo e é óbvio que esse compacto agora é arma indispensável nossa e sempre tocamos ele em nossos sets e dedicamos ao Chester.

Outro que vale destaque é Sweet soul Rocking dos Invaders. Lendário compacto de rocksteady do Studio 1, também não existe reprensagem e é dos grandes compactos do gênero, além de ser raríssimo, e que, quando aparece na internet para leilão (fato que acontece de 5 em 5 anos) sai por, no mínimo 1000 dólares. Enfim, Dexter “Echo Vibration” Campbell, também conhecido como Skaprofessor, veio ao Brasil a nosso convite para algumas apresentações e simplesmente amou o país e o nosso tratamento, e passou a nos considerar família, filhos e sempre deixava claro que foi a melhor viagem da vida dele. Um dia estávamos em um samba aqui em São Paulo e Dexter passou mal, espirando muito, tossindo, fomos embora e ele pediu uma “aspirina” próximo à minha casa. A farmacia estava fechada e Dexter disse “ok, amanhã você compra, não esquenta” já que eram altas horas da madrugada, porém mesmo assim eu resolvi procurar uma farmácia 24 horas. Depois de 40 minutos encontrei e comprei aspirinas, mel e outro medicamentos e, ao chegar em casa, fiz um chá com alguns medicamentos e dei ao Dexter que no dia seguinte acordou ótimo e já veio a mesa de café da manhã com o compacto na mão dizendo:  “Alex, esse é um presente meu pra você”. Eu fiquei sem reação, não aceitei, sugeri troca, venda (afinal era uma raridade imensa que eu sempre quis, mas ganhá-la assim eu nunca imaginaria) , Dexter relutou e disse “ontem eu estava mal e você encontrou uma farmácia. Fez de tudo pra que eu melhorasse e hoje eu estou bem. Se isso fosse em qualquer lugar do mundo me deixariam no hotel e somente no outro dia me dariam algum remédio. Sua atitude não tem preço. Discos Jamaicanos são ouro, porém também são só um pedaço de plástico e sua atitude comigo vale mais que qualquer disco”.

Bom essa são só 3 histórias dentro de uma grande coleção certamente levaria páginas, páginas e páginas pra descrever história por história desses compactos. (Risos)

Durango95′: Na passagem recente da banda Skatalites por São Paulo, vocês mostraram um acervo de discos que surpreendeu até os integrantes da banda. Como você se sente recebendo o reconhecimento como colecionador e preservador da cultura jamaicana?

Jurassico YM: Cara, isso é demais. Você ver os caras que gravaram aquilo falarem “poxa, eu gravei isso aqui e nunca vi” e melhor, ainda verem que não somos meros colecionadores que guardamos para nós esses tesouros, e sim compartilhamos com todos. Foi surreal ver Lloyd Knib (baterista fundador da música jamaicana, falecido esse ano) sentado em sua bateria, esperando o show começar e nós, antes do show, resolvemos tocar nossos últimos 5 sons, apenas sons que Lloyd Knibb gravou e ainda tinha a bateria pesada dele em destaque. Quando chegou no som  “Smiling-don drummond/Top deck label”, que tem uma bateria absurdamente pesada (e é um compacto muito raro), Lloyd Knibb pegou sua bengala e foi até a ponta do palco na frente de uma multidao de mais de 50 mil pessoas que aguardavam o concerto e ficou ali escutando o som e fazendo gesto de positivo com o rosto. Isso não tem preço mesmo!!!

 

Durango95′: Belém é uma cidade conhecida, assim como São Luís, por seus laços com o reggae, onde figuras ilustríssimas, como Gregory Isaacs, Eric Donaldson, Don Carlos e outros, faziam e ainda fazem questão de incluir uma data na sua turnê. Qual é o grande diferencial de tocar em cidades tão vinculadas com a cultura reggae?

Jurassico YM: Isso é muito master. Quando resolvi pesquisar a fundo a cultura dos sistemas de som da música Jamaicana, obviamente eu caí no assunto São Luis/Bélem com seus mais de 40 anos de reggae, de paixão pelo reggae e é claro que isso me deixou mega interessado. Tanto que, quando fui pela primeira vez a Bélem e tive oportunidade de conhecer o lendário Ras Margalho, foi algo que gostei demais! Assim como hoje ter como amigo pessoal o não menos lendário, Serralheiro!

 

Durango95′: Como vocês veem a receptividade dos lugares que tocam? É importante momento para estreitar laços com colecionadores de diferentes lugares?

Jurassico YM: Muitas vezes as pessoas pensam que apenas o reggae roots ou até mesmo o dancehall (dependendo do lugar em que tocamos) são capazes de animar o público. Mas falo com orgulho que desconheço um lugar no Brasil e no mundo por onde já passamos que alguém não caiu na dança com os velhos ritmos da Jamaica. Sempre as pessoas se surpreendem e vêm no final falar que sequer gostavam de reggae – em alguns casos -, mas que adoraram aquilo e que os ritmos são envolventes e sempre pedem pra voltar (detalhe que todos lugares que já fomos tocar nós já voltamos).

E sim, é interessante manter laços com colecionadores de todo o Brasil pra que possamos promover um intercâmbio bacana, mesmo não tendo essa receptividade por parte de alguns.

 

Durango95′: Sua segunda passagem por Belém. O que você destaca, ou traz de “novidade” para o próximo dia 15/12?

Jurassico YM: Bom, o destaque fica pra energia do nosso set que só aumenta com o passar do tempo, já que o amor pela música jamaicana só aumenta também e é claro pelas várias e raras pedras recentemente adquiridas por nós em recente viagem a Kingston.

O Jurassico Sound System se apresenta em Belém no próximo dia 15 de dezembro:

Local: Espaço Cultura Fuxico (Rui Barbosa entre Conselheiro e Mundurucus)

Ingressos antecipados (Distro rock store): 10 Reais

Na hora: 15 Reais

Informações: 82142890 / @xaninhodiscos / xaninhodiscosfalidos@gmail.com

Apoio:

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Casarão Cultural
Veg Casa
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Comments

  1. que lindo gente🙂

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