Clássicos pra não deixar passar – Quadrophenia

Por Raphael Pinheiro

Em 1973 o The Who já tinha mais que consolidada a fama de ser uma banda destruidora ao vivo: desde os primórdios mod chegando até o histórico show em Leeds, seus integrantes sempre davam o máximo de si nas apresentações. Em disco, porém, a reputação não era tão sólida. É difícil encontrar alguém que associe o legado da banda aos registros de estúdio, visto que mesmo um disco icônico como Tommy só teve seu peso amplificado e sua versão definitiva gravados também ao vivo – nos shows de Leeds e da Ilha de Wight. Fora isso, é comum lembrar da banda por meio de singles e coletâneas, como se faltasse uma lacuna do “grande álbum”, sua obra-prima. O que não deveria ser tão comum, visto que este disco existe e merece ser mais escutado. Chama-se Quadrophenia.

A inquietude de Pete Townshend o desafiava a compor um trabalho ainda mais ambicioso do que tudo que já havia escrito até então. Mesmo com a notoriedade que Tommy gerou, já havia tentado escrever outra ópera-rock logo em seguida. O projeto Lifehouse acabou abortado e algumas de suas poucas músicas finalizadas acabaram sendo lançadas em singles esparsos ou incluídas no bom Who’s Next. Tomado por novas ideias, Pete saiu por aí de gravador na mão e registrou sons esparsos, desde um apito de trem até ondas quebrando no mar. As diferentes personalidades dos integrantes da banda dariam origem a uma nova premissa: a história de um rapaz chamado Jimmy, um mod convicto, que revela ter um transtorno de múltiplas personalidades ao longo das dificuldades e desilusões que atravessa em sua vida. A jornada de Jimmy é contada ao longo de um disco duplo, pesado, coeso e com todos os músicos no auge de sua capacidade técnica. Roger Daltrey nunca cantou tão bem, a mixagem é excelente até para os padrões atuais – estamos falando de um disco com quase 40 anos – e Townshend criou quatro temas bem distintos, que se misturam ao longo do disco e representam, obviamente, as diferentes personas de Jimmy.

O resultado é um álbum consistente e que nunca soa cansativo, apesar da temática intrincada. Não estamos falando de rock progressivo ou psicodelia aqui, e sim de rock’n’roll; o encadeamento das faixas serve apenas para que a sensação de crescendo aumente no decorrer da audição; desnecessário dizer que Quadrophenia é um disco para ser ouvido de uma tacada só. A abertura, “I Am The Sea”, apresenta brevemente os temas principais para cair direto em “The Real Me”, cuja linha de baixo foi gravada de primeira no estúdio durante uma brincadeira do mito John Entwistle. Enquanto Jimmy confessa suas agruras ao terapeuta, guitarra e baixo duelam para ver quem faz mais barulho. É a apresentação forte e marcante que o disco realmente merece, antes da banda retomar os mesmos quatro temas principais na faixa título, Quadrophenia. Note-se que devido à grande pesquisa de efeitos e aos devaneios de composições de Townshend, o preço a ser pago veio na turnê, visto que era muito difícil reproduzir ao vivo fielmente todos os detalhes gravados em estúdio. Por conta disso, o próprio músico demorou a reconhecer que havia escrito ali algumas de suas melhores músicas, por ter acreditado na época que os shows pela primeira vez ficavam abaixo do potencial da banda.

Quadrophenia não foi um grande sucesso comercial, e é duvidoso que a própria banda tenha acreditado nisso um dia. 5:15, a que mais chegou perto de ser um hit, sempre se manteve constante nos shows da banda, assim como a balada “I’m One” e a já citada “The Real Me”. O desenrolar da história do protagonista ainda guarda outros grandes momentos (“I’ve Had Enough, Bell Boy, Dr. Jimmy”) até este se afastar de tudo e todos para finalmente se isolar em uma pedra, numa praia em Brighton, e ter uma epifania. Momento do disco onde todos os temas musicais são retomados e Roger Daltrey entrega uma das melhores performances de sua carreira, no encerramento “Love Reign O’er Me”. The Who finalmente tinha um álbum para se gabar e ser definitivamente lembrado, tanto lírica quanto musicalmente.

A tough guy, a helpless dancer. (“Helpless Dancer” – Roger Daltrey)
A romantic, is it me for a moment? (“Is It Me?” – John Entwistle)
A bloody lunatic, I’ll even carry your bags. (“Bell Boy” – Keith Moon)
A beggar, a hypocrite, love reign o’er me. (“Love Reign O’er Me” – Pete Townshend)

A exemplo de Tommy, um filme foi produzido com o enredo do disco. Sting (!) é um dos poucos nomes conhecidos no elenco e o protagonista é vivido pelo inglês Phil Daniels, que teve algum destaque na carreira ao cantar os vocais rap da música “Parklife”, do Blur. Não teve grande repercussão e merece ser citado apenas como curiosidade.

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