Aquele disco: Paralamas do Sucesso – Nove Luas


Vou sair pra ver o céu
Vou me perder entre as estrelas
Ver daonde nasce o sol
Como se guiam os cometas pelo espaço
E os meus passos, nunca mais serão iguais
Se for mais veloz que a luz, então escapo da tristeza

Os Paralamas do Sucesso – Busca vida.

Quando me foi perguntado sobre “aquele disco”, de bate pronto me veio à mente o Ok Computer (Radiohead, 1997). Pensei um pouco e cri que talvez fosse melhor escolher o Sky Blue Sky (Wilco, 2007).  Também poderia ter pego o Beautiful Freak (Eels, 1996). A escolha de qualquer um desses, ou outros dos mesmos artistas, seria justa, já que refletem diretamente no homem que me tornei e no músico/produtor que eu gostaria de ser – e sou um pouquinho, acho que não faz mal reconhecer algo que preste em mim.

Entretanto, eu não teria me viciado em música se não fosse uma troca de fitas k7 entre dois colegas na sétima série, nos meus 12. Os vi comentando como era bom aquilo. Curioso, totalmente alheio à música, tv, moda, essas coisas que até hoje encontram dificuldades para influenciar a vida aqui dentro de casa, pedi emprestada a tal fita. Era uma coletânea da época, de músicas de Os Paralamas do Sucesso. Lembro do impacto que aquilo me causou de imediato e do baita charme que era ter uma fita k7 e um walkman.

Os Paralamas do Sucesso.

Daí que de tanto falar em Paralamas, mesmo só conhecendo aquelas 10 músicas que cabiam na fita, ganhei o Nove Luas (1996) num amigo invisível no curso de inglês, da professora na época – até a reencontrei 15 anos depois num supermercado aqui perto de casa. Continua bastante bonita, total married with children (para lembrar outro bom disco que me criou, Definitely Maybe, Oasis, 1994).

Os Paralamas do Sucesso - Nove Luas

Nove Luas abre com um riff de metais marcante de “Lourinha Bombril”. Dá pra dizer que tipo de música é essa? Samba rock? Ska? Latina? É uma confusão de sabores que se reflete até na letra quase non sense, versão de “Parate y Mira”, de Los Pericos (aqui o clipe psicotrópico e saliente).

Duvido que alguma banda de rock brasileira tenha dialogado tanto com o que se produz na América Latina como Paralamas. A latinidade segue pela segunda e terceira faixas, “Outra Beleza” (em parceria com Lulu Santos, que sempre participou dos discos do trio) e “La Bella Luna”, com seu melodioso e escorregadio slide de introdução. Bela canção.

Na quarta faixa, mais uma versão de outro artista latino: Soda Stereo, grande banda argentina. “Música Ligeira” é o que deve chegar mais próximo do que se chama de rock no disco, com aqueles refrões mais agressivos, bateria mais reta, chimbal aberto no refrão, solo no final da música, essas papagaiadas. Uma versão infinitamente melhor do que aquele arremedo de cópia que o Capital Inicial fez mais recentemente, absurdamente rebatizando a música de “À sua maneira”. Vou te falar…

“Capitão de Indústria”, “O caminho pisado”, “Busca vida” e “O caroço da cabeça” são as faixas que refletem uma certa desesperança que deve se abater sobre um homem com seus quase 40. A primeira, fala sobre a dedicação ao trabalho, falta de tempo pras coisas simples da vida, num regue estranho. Paralamas sempre mateve muito essa linha The Police, desde O Passo do Lui, seu segundo disco. A segunda trata do mesmo assunto, com muito menos leveza. Gosto das guitarras nessa música, com uns dedilhados bem elaborados, além das pinceladas de drive e distorção. Bons timbres. A terceira, deve ser a mais famosa do disco baladinha que foi hit na MTV, com um clipe muito bom, que ganhou vários prêmios no VMB do ano respectivo. Gosto muito da produção dessa música. A última deste bloco, parceria com o antipático e cabeçudo Nando Reis, mais violão, e guitarras fazendo perfumaria. Mais uma vez falando sobre como a vida vai perdendo as coisas simples e com uma esperança melancólica sobre a continuidade, como em “e os ossos serão nossas sementes sobre o chão, e dos ossos as novas sementes que virão”.

Fechando o disco, o bloco das românticas: “Sempre te quis”, antes gravada pela mulher que não envelhece, Daniela Mercury, a mulher que padronizou o timbre de vozes de cantoras pop baianas; “Seja você”, mais um regue maluco, com o nype de metais com arranjos muito divertidos; “Na nossa casa” é uma bela canção. Talvez seja mais triste do que bela, quando termina dizendo “não é o fim do mundo, é só o fim de tudo que fomos nós. Sem flutuar e sem tocar o fundo, sempre sós”. Gosto dos violinos, cellos, os tambores, o climão que se cria na progressão da canção. Não é mais triste do que bonita não. Por último, “um pequeno imprevisto” de onde se tira o nome do disco, de um dos versos da música, a mais fraquinha das 12, mas ainda assim, bonitinha.

Sem este disco, provavelmente eu não teria ouvido nenhum outro.

Infos:

Disco: Nove Luas
Banda/Artista: Paralamas do Sucesso
Ano de Lançamento: 1996
Gravadora: EMI Music

Lista de Músicas:

Lourinha Bombril
Outra beleza
La Bella Luna
De música ligeira
Capitão de indústria
O caminho pisado
Busca Vida
O caroço da cabeça
Sempre te quis
Seja Você
Na nossa casa
Um pequeno imprevisto

Diego Fadul é guitarrista da banda Aeroplano, conheça mais em:

Myspace |  Youtube |  Twitter | Fotolog | blog

Texto publicado em: http://veiapop.ecleteca.com e reproduzido no Durango95′

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Comments

  1. Helaine says:

    Concordo com tudo, menos com a parte de que “Um pequeno imprevisto” é a mais fraquinha. É a minha música favorita do disco!!!! hahahahah

    “Eu quis querer o vento não leva pra que o vento só levasse o que eu não quero.
    Eu quis amar o tempo não muda pra que quem eu amo não mudasse nunca.
    Eu quis prever o futuro, consertar o passado, calculando os risco bem devagar, ponderado… Perfeitamente equilibrado!”

    Poesia pura! =]

    E esse é um dos melhores discos dos PDS.

  2. Campos says:

    Anos 90. Todo mundo já tinha dito tudo, parecia que fariam mais discos legais. Eis que surge o Nove Luas.
    M.T.

  3. Campos says:

    Anos 90. Todo mundo já tinha dito tudo, parecia que não fariam mais discos legais. Eis que surge o Nove Luas. Não fosse o boom do rock nos anos 80…
    M.T.

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