And Justice for All – A hora de quem merece

Acredito que a maioria de vocês que acompanham o blog Durango95′ deve ter assistido ao filme de 2009 It might get loud ou A todo volume (ver matéria no link), documentário focado nos guitarristas Jimmy Page, “The Edge”, Jack White e suas crônicas “guitarrísticas”.
Bem, para os que ainda não o fizeram, recomendo que o façam; não morri de amores pela película, mas três momentos em particular foram extremamente marcantes para mim.

I Might Get Loud

No primeiro deles, o lendário Jimmy Page pega um vinil 7″ de sua extensa coleção e põe para tocar. A bolachinha em questão trata-se de Rumble de Link Wray. Nada demais, uma vez que Link Wray é uma grande influência para diversos guitarristas, até Pete Townsend paga o maior pau. Não obstante, o que realmente me impressionou foi a reação de Jimmy Page à música. Aquele sorriso irrefreável em seu rosto, como o de um adolescente hipnotizado pelos riffs de seus primeiros ídolos musicais.  A maneira como ia narrando o desenrolar da canção, podia-se ler em seus olhos o quanto ele admirava Link Wray.

É, o velho Link sabia mesmo das coisas.

Link Wray

Os outros dois momentos que me chamaram a atenção foram com Mr. Jack White. Sim, sou fanzaço do White Stripes e fiquei super triste com o fim da banda, principalmente por terem acabado sem lançar em vinil sua versão allegro ma non troppo de “For the Love of Ivy” do Gun Club.
O que Jack White fez de tão importante neste documentário? Em um determinado momento ele coloca um disco do Bluesman Son House. É uma canção à capela e a voz de Son House parece penetrar em cada poro de Jack, uma verdadeira acachapação dos sentidos em consonância com o desenrolar daquele blues. Acho que só aquele que verdadeiramente ama a música consegue decifrar a epifania do momento.

Em outro trecho, Jack coloca para tocar “Frog went A-courting”, canção de domínio popular tocada pela dupla Flat Duo Jets. Estranhamente, a animosidade de Jack não é acompanhada nem por The Edge e nem por Jimmy Page. Novamente, lembranças me vieram à tona, afinal, quantos de voces tambem já não sofreram com a indiferença dos demais à uma banda ou música idolatrada?
Com o desenrolar da canção, Jack explica a influência que o Flat Duo Jets teve em sua vida, de como só após escutá-los ele teve o estalo de dizer “É isso! É isso o que quero fazer!”.

Flat-Duo-Jets-Safari

Eu já sabia da devoção que Jack White tinha pelo Flat Duo Jets. Na verdade, sempre me perguntei o porquê dos White Stripes serem gigantes e o Flat Duo Jets não. Era com uma salutar subversão que esta realidade me atingia. Como na época do grunge, em que não conseguia entender como o Nirvana era gigantesco e o Mudhoney apenas flanava entre o underground e o mainstream, sem grandes exposições. Aquilo me deixava inquieto, senão desconfortável. Claro que anos depois eu entendi que toda aquela explosão era desnecessária, e que quando se voa fora do radar, a longevidade e processo criativo se tornam mais palpáveis. No caso dos Jets, eu apenas queria que o mundo soubesse quem era Dexter Romweber, assim como sabia quem era Mark Arm.

O Flat Duo Jets começou em meados dos anos 1980 e lançou seu primeiro disco em 1990. Em alguns momentos contou com a presença de um baixista, todavia a formação clássica sempre tenha sido apenas Dex Romweber e Crow. A banda sempre se caracterizou pelo rockabilly garageiro, low fi, com o problemático Dex sempre a libertar seus demônios em canções cruas e primitivas. Fossem nos sons mais viscerais, nos blues ou nas baladas, era inevitável a percepção do tom enigmático e por vezes melancólico na voz de Dex.

Talvez aí estivesse a resposta que eu buscava.  A banda era sombria demais para o rockabilly e agitada demais para o blues. Além do mais, os Jets sempre tiveram uma produção largada, o tipo de som que, animalesco ao vivo, não conseguia uma tradução eloquente em seus discos. O som saia cru, mas não era aquele propositalmente cru de White Stripes ou Black Keys, era um cru de algo que fora prematuramente parido de um ventre algoz e inverossimil.

Dexter Romweber Duo poster

Com o passar dos anos, o jovem rebelde e inquieto deu lugar ao coroa barrigudo e depressivo. Crow deixou a banda e Dex seguiu solo e posteriormente formou o Dex Romweber Duo, que hoje conta com sua irmã Sara Romweber na bateria, fazendo um som bem mais folk que o de outrora.

Dex Romweber é ídolo de gente como Exene Cervenka, Cat Power e Neko Case. Figura constante em festivais importantes como SXSW e Muddy Roots. O sucesso que acredito que merecia nunca veio, mas pelo menos teve o reconhecimento através dos fãs badalados e de parte da mídia.

Achei lindo assisitir It might get loud e ver Jack falando dos Jets. Os pelos em meus braços ficaram arrepiados. Ver meu ídolo Dex Romweber tocando “Crazy Hazy Kisses” e desconstruindo “Baby Blue” de Gene Vincent eram coisas que eu já tinha assistido mil vezes na internet. Ver aquilo ali no documentário, era então algo diferente, tinha um significado totalmente novo. Era como se um crime cometido há decadas tivesse finalmente tido um final que, se não feliz, pelo menos deixava um sabor de justiça.

E viva Link Wray, Son House e Flat Duo Jets!

Son House

Espero que ainda façam muitos outros It might get loud por aí. The Devil and Daniel Johnston foi um deles, Born to Lose foi outro. Porém, ainda existe uma infinidade de Jeffrey Lee Pierces, Bo Diddleys, Stranger Coles, Bassholes e outros injustiçados que ainda não tiveram o reconhecimento merecido.

Espero que o tenham em breve.

E espero que seja À TODO VOLUME.

Renato Purkhiser
This is Radio Trash

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