Oldies but Goodies – O bom é o velho?

Sabe aquela pessoa chata que vive reclamando da música atual, que nada de novo lhe agrada e quando uma coisa é legal, diz que não passa de uma cópia genérica de algo que foi bom nos anos 1960 ou 1970? E não fica só no meio musical, a chatice é tanta, que o camarada tem que gostar só de filmes antigos e programas de TV da época em que controle remoto nem existia. Até da zebrinha mala do Fantástico o “fidumaégua” tem saudade.

Então, esse sou eu.

Opa, espere aí um pouco. Antes de rolar a barra para os comentários me mandando tomar bem longe, deixe-me explicar melhor. Também sou grande admirador de muitas bandas e estilos “novos” que surgem lá e cá; sou usuário do Facebook e assisto Family Guy, portanto, não sou de ceticismos baratos e desnecessários.

No entanto, por algum motivo que não sei bem explicar, sempre me parece que as melhores novidades da música são justamente aquelas que remetem ao passado. E bem passado. Ao invés de ir nos Rolling Stones, por que não ir àqueles que os infuenciaram? Ir direto às raízes dos pioneiros de estilos malditos que ,embora esquecidos, pouco a pouco vão ganhando novos adeptos entre as gerações mais novas.

The Man in Black ifluenciou gerações

Uma cena em particular me chama bastante a atenção. Uma nova safra de artistas, em sua maioria americanos, mais precisamente do Sul dos Estados Unidos – lugar que nos anos 1920, 1930, 1940 e 1950 foi uma verdadeira fonte dos melhores e mais originais músicos – surge influenciados pelos pioneiros, tais como Leadbelly, Robert Johnson, Son House, Johnny Cash, Hank Williams, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins e uma infinidade de outros mais vieram daqueles estados sulistas, outrora mais famosos pela Guerra Civil e pelo histórico de escravidão e racismo exacerbado.

Lester Flatt e Earl Scruggs ajudaram a redefinir o bluegrass

Esta nova safra de músicos, alguns neotradicionalistas e outros nem tanto, começou a surgir em meados dos anos 1990 e encontrou seus pilares em gente como Wayne Hancock, Dale Watson e é claro, Hank Williams III. Há um verdadeiro leque de estilos e formatos envolvidos: do blues ao bluegrass, do rockabilly ao folk, do hillbilly às One Man Bands, além daqueles que misturam tudo em uma coisa só. Quem conhece Carolina Chocolate Drops ou Legendary Shack Shakers, sabe do que estou falando.
Com o advento do Myspace, cada vez mais e mais bandas se reúnem em um só lugar, e a cena ganha maior envergadura com objetivos em comum: rebuscar as raízes do blues e resgatar o genuíno som country.

Carolina Chocolate Drops

O sul da terra do Tio Sam é ponto de referência, mas certamente nem tudo vem de lá. A verdadeira epítome de toda essa “new roots music”, o recente selo Farmageddon Records, vem de Montana, em meio às montanhas rochosas dos EUA. E indo mais distante ainda, da fria Suiça vem o excelente Voodoo Rhythm Records, liderado por Reverend Beat Man e que lança disco de craques como Possessed by Paul James e Delaney Davidson.

O Lendário Chucrobillyman, inovando com sua viola caipira

No Brasil, tem muita gente boa e já engrenada nessa música de raiz. Em 2008, tive o prazer de ver duas apresentações que desencadearam de vez minha paixão por esses novos artistas: Hilbilly Rawhide e O Lendário Chucrobillyman. Fiquei boquiaberto e mergulhei de vez no estilo. O que me fazia admirá-los mais ainda era o fato de ambos emularem música de raiz em canções com uma pegada bem punk e selvagem. Coisa fina. O som pode vir do passado, mas sempre há uma pitada de contemporaneidade.

Hank III: A terceira geração de lendas do country

Acho que é exatamente aí que reside a força desta nova cena. Hank Williams III, por exemplo, não limitou-se a copiar o country de seu pai ou de seu avô. Ele colocou punk e metal no lance e criou algo até então, único. O .357 String Band prestou homenagem aos pioneiros do bluegrass como Bill Monroe e Earl Scruggs, mas metendo um “Dark Gospel” nervoso no meio que também resultou em uma coisa ímpar. E cada vez mais os artistas vão revirando o passado, acrescentando sempre algum toque de inventividade. Mesmo entre os neotradicionalistas, percebe-se um quê de renovação, como uma brisa a adentrar um quarto empoeirado que ficou fechado por tempo demais.

.357 String Band, bluegrass nervoso

Lembram daquela cena inicial do punk em Nova York? New York Dolls, Ramones, Dictators, Dead Boys, tantas bandas e todas muito originais. Todas eram punks, mas sem copiarem umas às outras. Guardadas as devidas proporções, é mais ou menos isso o que está rolando com esses artistas. Por exemplo, o Those Poor Bastards toca o que eles chamam de gothic country. Pô, country gótico, que diabo é isso? E ao apertar o play, vem aquele som incrivelmente bom, que você já ouviu em algum lugar e que ao mesmo tempo parece novo em folha.
Não é um mero revival e é justamente nisso que se concentra a grandiosidade de todos estes artistas do chamado… chamado…?

Those Poor Bastards, country gótico

Opa, e agora, que nome se dá a isso tudo? Vamos lá mídia formadora de opinião, onde você está que ainda não batizou o negócio? Está dificil? Será porque talvez seja inclassificável? Ou será porque cada banda use um termo diferente para se definir? Hmmm, isso até parece proposital. Imaginem só, vem um idiota qualquer e cria um termo chulo, algo tipo… “grunge”. Aí vem um mala que nem eu dizer que o negócio não presta e que Leadbelly é que era bom.

Leadbelly, ícone do folk e blues americano

Gosto de ver a dimensão que o negócio está tomando. Selos como Farmageddon, Fat Possum, Bloodshot, Hillgrass Bluebilly e o Third Man do hypado Jack White fazem ótimos lançamentos todos os meses. Seasick Steve virou figura carimbada no Jools Holland. O hispter South by Southwest abre cada vez mais espaço para esses artistas de música Roots, Americana, StreetGrass, Outlaw Country, Blues Trash, XXX ou qualquer que seja o termo. O rótulo não importa. A boa música sim.

Farmageddon Records, a meca

Records to ruin any party

Às vezes acho que todo esse louvor ao passado é sinal de que uma velhice ranzinza vem pela frente. Acho que não tenho mais paciência para banda inglesa com vocalistas magricelos usando óculos escuros, mascando chiclete e com aquele “jeito Liam Galagher” de ser. E ainda por cima usando aquelas jaquetas de brechó que gritam: “Me adorem, sou a nova salvação do rock”.

Seasick Steve. O homem do momento

Justamente agora quando ia tocar aqui no player minha música preferida do novo disco do Fabulous Bandits, vem o vizinho e atocha o tecnobrega até o último volume. Minha primeira reação, veja até que grau o ser humano pode ser mala, é pensar em como o brega nos anos 1970, 1980 e 1990 era bem mais legal. Fosse um músico, acho que investiria nisso, trazer de volta as raízes do brega e misturar com, sei lá, doom metal. Todos esses tecladinhos que mais parecem videogames de 8 bits fazendo versões de Beyoncé e Britney Spears já me dão dor de cabeça.

Fabulous Bandits, banda londrinense de hillbilly

Enfim, avisei logo de início que era um chato de marca maior. Agora que já chegaram aqui embaixo mesmo, podem xingar a vontade. Vou ali na cozinha tirar meu almoço que esquentei no forno.

Isso mesmo, forno. Porque microondas vocês sabem, é somente para os fracos!

Stay Sick!
Renato Purkhiser
This is Radio Trash!

Ps.:
1 – O termo “grunge” na verdade não foi criado por um idiota qualquer, tenha ele sido Mark Arm ou Lester Bangs.

2 – Após escrever este post e antes de sua publicação eu dei entrada em um forno microondas, de 12x na Radiolux. É, acho que sou um traidor do movimento “mala-sem-alcismo”.

Para quem se interessar:
http://www.newrootsorder.com/
http://www.givememyxxx.com/
http://www.savingcountrymusic.com
http://www.voodoorhythm.com
http://www.hillgrassbluebilly.blogspot.com/

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