Joy Division – Uma história furiosa

Por Filipe Larêdo

de São Paulo

Poucas bandas na história do rock fizeram tanto estrago em tão pouco tempo. Com apenas alguns anos de existência, o Joy Division se tornou uma referência mundial.

Vinda de Manchester, Inglaterra, a banda foi formada em 20 de julho de 1976, quando os Sex Pistols tocaram no Lesses Free Trade Hall, junto com os Buzzcocks e os Slaughter and The Dogs. Essa apresentação histórica estimulou muito o cenário musical da cidade e, consequentemente, todos os  futuros membros do Joy Division.

Tudo começa depois dessa apresentação e, em 26 de dezembro de 1976, os Buzzcocks, sob a batuta do mítico produtor Martin Hannet, gravam seu primeiro EP, Spiral Scratch. Considerado o estopim do movimento punk em Manchester, foi o grande fator de motivação para Ian Curtis, que conhecia Pete Shelley e seu empresário Richard Boon, a tentar alcançar o mesmo.

Bernard Sumner (Barney) e Peter Hook estavam no show, com seu amigo Terry Mason. Barney já tinha uma guitarra, então Peter Hook decidiu comprar um baixo e Terry foi escalado, embora não tocasse muito bem, para a bateria. O que faltava era um vocalista, e Ian Curtis, que também estava presente e já conhecia os outros três, seria o homem certo para isso.

Sobre o show, Peter Hook, em entrevista, diz:

“Eles fizeram quatro (shows). Bem no comecinho, só em Manchester. Custava 50 pence para entrar.  Nos dois primeiros shows, não havia quase ninguém… Entre 50 e 75 pessoas. Aí veio uma forte onda de propaganda contra – com o programa de Bill Grundy… Não sei se você sabe o que é, é um show de TV, eles foram e disseram um monte de palavrões no ar… Depois disso, ficou barra…”

Ian estava interessado não apenas na música, mas também na composição das letras e já há bastante tempo tentava formar uma banda. Com uma profunda influência da poesia simbolista de Arthur Rimbaud, ele buscava reproduzir em sua poesias, toda a angústia vivida em um tempo que a repressão política forçava os jovens a seguir um código de conduta extremamente rígido. Rimbaud, um poeta francês do século XIX, também escreveu seus poemas rebeldes e foi considerado um dos primeiros a expressar as tristezas provindas da Revolução Industrial.

Arthur Rimbaud, poeta francês do século XIX

“Cidade” (Arthur Rimbaud)

“Sou um efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole que julgam moderna porque todo estilo conhecido foi excluído das mobílias e do exterior das casas bem como do plano da cidade. Aqui você não nota rastros de nenhum monumento de superstição. A moral e a língua estão reduzidas às expressões mais simples, enfim! Estes milhões de pessoas que nem têm necessidade de se conhecer levam a educação, o trabalho e a velhice de um modo tão igual que sua expectativa de vida é muitas vezes mais curta do que uma estatística maluca encontrou para os povos do continente. Assim como, de minha janela, vejo novos espectros rolando pela espessa e eterna fumaça de carvão, – nossa sombrados bosques, nossa noite de verão! – as novas Erínias, na porta da cabana que é minha pátria e meucoração, já que tudo aqui parece isto, – Morte sem lágrimas, nossa filha ativa e serva, um Amor desesperado, e um Crime bonito uivando na lama da rua.” (Em Iluminações, tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)

O nome Stiff Kittens foi o primeiro nome proposto – e não adotado -, mas foi Warsaw o eleito. Inspirado na música “Warszawa”, do álbum, Low, de David Bowie, o nome conseguiu dar à banda o que estava faltando e foi escolhido um pouco antes da primeira performance, no Eletric Circus em 29 de maio de 1977. Foi inclusive mencionada em diversas revistas de música britânicas e  algumas de suas músicas foram incluídas na coletânea Short Circuit – Live At The Electric Circus.

Desde o princípio, Warsaw quis tocar sua próprias composições, que, embora cruas, estavam plenas de entusiasmo. Causava um choque tremendo na plateia a força de um som agressivamente punk, com letras morbidamente verdadeiras. Se Warsaw era punk, o Joy Division inaugura, regiamente, o post-punk.

O livro de Karol Cetinsky, publicado nos anos 1950, chamado The House of Dolls, que descreve os horrores do nazismo e narra a história de uma ala em um campo de concentração alemão, no qual prisioneiras judias eram usadas como escravas sexuais e forçadas a se prostituírem, durante a Segunda Guerra Mundial. Isso rendeu muitas associações a movimentos neo-nazistas, mas, como explicado pessoalmente por seus membros, estavam mais interessados em manter viva a memória do sofrimento vivido por seus parentes e antepassados. Então, não se aflija, Joy Division, definitivamente, não é banda de/para careca. Suas letras diziam muito mais do que essa podre ideologia era capaz de suportar. Ele falavam sobre vida e morte, alegria e sofrimento, anestesia e êxtase, poder e submissão.

Com um novo baterista, Stephen Morris, que, ao contrário de seus antecessores, se conectou muito bem com a banda, finalmente a banda tinha um line-up que poderia alcançar fama como Joy Division e, em dezembro de 1977, gravava quatro músicas que mais tarde seriam lançados no Ep Na Ideal for Living e chamariam a atenção do produtor e apresentador de TV, Tony Wilson.

Com a independente Factory Records de Tony Wilson, o primeiro álbum do Joy Division – produzido por Martin Hannet – sai e imediatamente se torna uma coqueluche. Unknouwn Pleasures foi lançado em 1979 e recebeu excelentes críticas da imprensa britânica, principalmente pelas músicas “Disorder” e “She’s Lost Control” . Mesmo com o repentino sucesso da banda, Ian Curtis se afundava em depressão, muito por conta dos problemas no casamento e a epilepsia, que dificultava muito as apresentações ao vivo.

Capa do disco Unkown Pleasures

Em uma de suas últimas composições, In a Lonely, ele diz:

The hagman looks round as he waits,
Gullet stretches tight and its breaks,
Someday we will die in your dreams,
How I wish we were here with you now.

Capa do disco Closer


Enquanto a banda se preparava para sua primeira turnê pelos Estados Unidos, em maio de 1980, consumido pela depressão, Ian Curtis, ao som de The Idiot do Iggy Pop, comete suicídio após assistir ao filme The Stroszek, do alemão Werner Hersog. Closer, o segundo álbum da banda é lançado postumamente e o single “Love Will Tear Us Apart” se torna o hit do Joy Division mais tocado de todos os tempos. Equiparando-se a “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana, é uma canção que distoa totalmente da maioria das composições da banda e, a despeito de sua qualidade estética, não pode, nem de longe, resumir toda a força filosófica de uma poesia furiosa.

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Comments

  1. Muito interessante. Gostei [das informações] Parabéns. Sou um eterno fã do Joy Division.

  2. Otimo, muito bem pra quem gosta do trabalho meteorico da banda.

  3. Rubia Ayabe says:

    Belíssimo texto para os fãs de Joy Division. Obrigada!

  4. Monalisa says:

    mto bom! Amo Joy Division

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