The Beatles e o rock psicodélico

por Daniel Leite

Belém/PA

Na segunda metade da década de 1960, o rock adquiriu uma nova roupagem em canções que extravasavam os sentimentos reprimidos daqueles jovens cansados de guerra, racismo, preconceito e pobreza. A década por completo representa o auge da contracultura que, envolta nesse meio hostil, contestava o consumismo e a ausência de pensamento crítico e estimulava a transformação social através de uma mudança da consciência e do comportamento humano. Dessa forma surgiam os hippies influenciados pela música folk de Bob Dylan, e, principalmente pela literatura de Allen Ginsberg, Jack Kerouack e William S. Burroughs – sendo que este último inclusive figura na capa do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Em meio a toda essa rebeldia, a psicodelia alucinógena causada pela busca por uma transcendência popularizava-se e o uso de drogas que tinham seu uso defendido e difundido por diversos estudiosos, como o psicólogo e neurocientista Timothy Leary, amigo pessoal de John Lennon.

O excesso de informações influenciou diversos artistas da época e transformava não somente quem ouvia, mas também quem compunha letras e melodias. O ano de 1967 foi batizado de “O Ano da Psicodelia” e alguns artistas lançaram discos que mudariam para sempre a história da música e talvez os mais importantes de suas carreiras: Axis: Bold As Love de Jimi Hendrix, Surrealistic Pillow de Jefferson Airplane, os álbuns debut de David Bowie, The Velvet Underground & Nico, Big Brother & The Holding Company (com Janis Joplin) e  The Piper At The Gates Of Dawn de Pink Floyd.

The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

Em 1º de junho deste mesmo ano, The Beatles lançam o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, um disco revolucionário e tido por alguns críticos como  o mais importante da história do rock. O álbum foi lançado numa época tão crítica para a banda quanto para o público, pois é retratado por alguns como o “declínio” da Beatlemania. Entretanto o lançamento dos Beatles carregaria eternamente nas costas  o bom fardo da inovação, desde as técnicas de gravação até a famosa arte da capa.

Sgt. Pepper’s é recheado de experimentalismo: cítaras, fuzz, órgão Hammond, piano elétrico, wah-wah e música de circo, de onde destacamos alguns fatos para inlustrar esse post.

“Being for the benefit of mr. Kite” talvez seja o maior exemplo disso tudo. Composta por Lennon e Paul McCartney, as letras da música foram retiradas por inteiro de um cartaz de circo (ao lado) do século 19, adquirido pelo próprio John enquanto gravavam o vídeo de “Strawberry Fields Forever”. Tudo vinha do cartaz, menos o cavalo que não chamava-se Henry.

O tema de abertura é a música batizada com o nome do álbum, onde a banda faz a introdução e o convite ao público para assistir ao show da Banda do Clube de Corações Solitários do Sargento Pimenta”, que termina já iniciando a faixa 2  cantada por Ringo Starr – “With a little help from my friends”, eternizada também pela clássica versão de Joe Cocker e pelo seriado The Wonder Years, nominado Anos Incríveis, na versão brasileira.

Em 1964, Ringo Starr foi acometido de forte crise de amigdalite e teve  que ser internado , deixando incerta a turnê mundial da banda que iniciaria no dia seguinte. Jimmy Nicol, de 24 anos, foi o baterista contratado para que os Beatles não tivessem que cancelar a tour, e teve a árdua missão de aprender, em uma tarde, todas as músicas do set list das apresentações. O jovem músico então iniciou os shows com os Beatles e nos intervalos das músicas, John e Paul constantemente perguntavam para Nicol como estavam as coisas, e a resposta era sempre “It’s Getting Better!”. Durante as gravações no estúdio Abbey Road, Paul lembrou-se da frase que acabou servindo de inspiração para compor a música.

A minha favorita “Lucy in the Sky with Diamonds”, foi alvo de críticas pela BBC quanto ao seu nome, onde suas iniciais supostamente fariam alusão a uma droga alucinógena. O videoclipe abaixo foi retirado do famoso filme Yellow Submarine dos Beatles, de 1968, bastante psicodélico, diga-se de passagem.

A triste “She’s Leaving Home” narra a história de um casal que, materialmente, sempre deu tudo  para sua filha e, atônitos, não entendem porque motivo ela fugiu de casa. A música foi composta por Paul e John, entretanto nenhum Beatle toca na faixa exceto estes dois últimos que cantam. A banda contratou uma orquestra de cordas para criar uma melodia e a gravação foi realizada em um único dia.

A ideia inicial era lançar “When I’m Sixty Four” como lado B de um single de “Strawberry Fields Forever” ou “Penny Lane”, porém, esta que foi uma das primeiras canções compostas por Paul McCartney quando ele tinha 16 anos, entrou no Sgt. Pepper’s supostamente porque o pai do baixista completara 64 anos no início daquele mesmo ano.

“A Day in the Life” surgiu por uma fusão de duas músicas diferentes compostas uma por Paul McCartney e outra por John Lennon – a de Paul só possuía o miolo e a de John só tinha o começo e o fim. A parte inicial de Lennon terminava exatamente quando toca um despertador, que  marca também o início da meia-composição de Paul, onde canta “Woke up, fell out of bed…”, e por relatar o momento que o personagem acorda, o som do despertador foi mantido. Na época do lançamento, cogitou-se a possibilidade de que nos estranhos sons que finalizam a faixa, haveriam supostas mensagens ocultas, entretanto, são sons capturados durante uma festa realizada para convidados no mesmo dia que a orquestra de 40 músicos gravava esta música. O videoclipe abaixo é introduzido por uma breve historinha da composição da música, relatada pelo próprio Paul.

Os personagens da capa, da esquerda para a direita, de cima para baixo:

1ª fileira: Yukterwar Giri (guru hindu), Aleister Crowley (mago), Mae West (atriz), Lenny Bruce (comediante), Karlheinz Stockhausen (compositor alemão), W. C. Fields (comediante), Carl Jung (psicólogo), Edgar Allan Poe (poeta e escritor), Fred Astaire (ator), The Vargas Girl (pin-up fictícia), Richard Merkin (pintor e ilustrador), Huntz Hall (ator), Simon Rodia (designer) e Bob Dylan (cantor).

2ª fileira: Aubrey Beardsley (ilustrador), Sir Robert Peel (Primeiro ministro britânico do século XIX), Aldous Huxley (escritor), Dylan Thomas (poeta), Terry Southern (escritor), Dion (cantor), Tony Curtis (ator), Wallace Berman (artista), Tommy Handley (comediante), Marilyn Monroe (atriz), William Burroughs (escritor), Mahavatar Babaji (guru hindu), Stan Laurel (o Magro da dupla com o Gordo), Richard Lindner (artista), Oliver Hardy (o Gordo), Karl Marx (filósofo social), H. G. Wells (escritor), Paramahansa Yogananda (guru hindu) e Sigmund Freud (fundador da psicanálise).

3ª fileira: Stuart Sutcliffe (primeiro baixista dos Beatles), Max Miller (comediante), Uma Petty Girl (pin-ups feitas por George Petty), Marlon Brando (ator), Tom Mix (ator), Oscar Wilde (escritor), Tyrone Power (ator), Larry Bell (artista), David Livingstone (missionário), Johnny Weissmuller (o Tarzan), Stephen Crane (escritor), Issy Bonn (comediante), George Bernard Shaw (dramaturgo), H. C. Westermann (escultor), Albert Stubbins (jogador de Futebol), Sri Lahiri Mahasaya (guru), Lewis Carroll (escritor) e T. E. Lawrence (o Lawrence da Arábia).

Fileira da frente: Sonny Liston (boxeador), Shirley Temple (aparece 3 vezes na capa), Albert Einstein (físico), Beatles (todos aparecem duas vezes, uma de barba feita e caras de meninos, e a outra com barbas, como estavam na época), Bobby Breen (músico), Marlene Dietrich (atriz) e Diana Dors (atriz).

Quem foi retirado: Jesus Cristo (retirado devido a famosa declaração de John de que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo), Adolf Hitler (um jornal britânico afirma que estaria escondido entre a bateria e Jonnhy Weissmuller), Jean Cocteau, Elvis Presley, Dixie Dean (jogador de futebol do Everton), Mahatma Gandhi e Billy Liddle (jogador de futebol do Liverpool).

Curiosidades: Enquanto os Beatles trabalhavam em seu disco, o Pink Floyd também gravava The Piper At The Gates Of Dawn no mesmo Abbey Road e ao mesmo tempo. Uma das lendas diz que o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band foi influenciado pelo Pet Sounds (1966) dos Beach Boys, e que Brian Wilson, líder da banda, teria sido influenciado para a criação do álbum após ouvir o Rubber Soul (The Beatles, 1965). Alguns críticos destacam o “Banda do Clube de Corações Solitários do Sargento Pimenta” como o mais importante disco da história do rock.

No ano seguinte ao lançamento (1968), o disco teve 7 indicações ao Grammy Awards, das quais garimpou 4 premiações: álbum do ano, melhor capa & arte gráfica, melhor engenharia de gravação – não-clássica e melhor álbum contemporâneo.

Referências:

  • LEWISOHN, Mark. The Complete Beatles Recording Sessions: The Official Story of the Abbey Road Years. Hamlyn Publishing Group Limited, 1988.
  • MUGGIATI, Roberto. A Revolução dos Beatles. Ediouro, 1997.
  • CROSS, Craig. The Beatles: Day-by-Day, Song-by-Song, Record-by-Record. iUniverse Inc., 2005.

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Comments

  1. Post da mais alta! Adorei!

Trackbacks

  1. […] E por falta de personagens, Sgt.  Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, de 1967, é a vencedora e   uma das capas mais importantes do rock and roll. Já ganhaou até Grammy de melhor capa e nela foram imortalizadas figuras importantes da história que se espremem atrás dos Beatles, como Mae West, Aleister Crowley, Fred Astaire, Tony Kurtis e Karl Marx. A capa foi idealizada por Jann Harworth e Peter Blake. Elaboramos também uma resenha especial sobre este álbum. […]

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